Os dias públicos e os dias privados

Verschenen in: ATLAS BRUSSEL


Era o meio-dia de 29 de agosto de 2016 quando o trem em que se encontrava aproximou-se dos subúrbios de Bruxelas. A arquitetura das casas, estreitas, agarradas umas às outras, era a mesma que ele se acostumara a associar com as do operariado inglês, naquelas imagens de fuligem da Revolução Industrial, como se Londres fora o foco de uma infecção que se alastrou pelo Canal da Mancha, espalhando-se pela Normandia, Valônia, Flandres, atingindo mesmo que tardia o oeste da Alemanha, onde a arquitetura do leste com certeza some, e as casas vão estreitando-se e diminuindo já a partir do Vale do Ruhr. A privacidade é um luxo ajardinado. Capitais e fronteiras, para ele, pareciam núcleos e membranas de células, que se contaminam por metástase na proximidade de outra, doente, cancerígena. Pensou mais uma vez na força centrípeta das línguas oficiais, a gravidade de uma sede de governo com polícia alfandegária sobre as casas e as caras das pessoas, sobre plantas de arquitetos e desenhos de esqueletos. Fachadas de prédios e estruturas de crâneos. Lembrou-se das casas geminadas de sua cidade natal, que os privilegiados entre muros associavam a pobreza, como aquelas construídas defronte da estação ferroviária de Bebedouro, agora desativada, estação quase de fim de mundo para a linha que ali chegara em 1912 e prometia prosperidade, construída com tecnologia inglesa pelas sucessivas companhias do estado de São Paulo. Onde seu avô quebrou por décadas as costas, curvou as omoplatas, rachou o torso. A língua dos avisos de provedores de telefonia celular e dos anúncios de chegadas a novas estações iam mudando ao cruzar fronteiras, anunciando novos centros de poder desde que o trem de Berlim o deixara em Colônia, e ele dali fora pingando, passando como as tropas do passado por pedaços de Holanda e Bélgica, de cidade em cidade, os alemães majoritários entre Colônia e Aachen com suas águas romanas de Aquisgrão, as transformações nos rostos na travessia do Mosa, as metamorfoses daí a Lieja e, por fim, após cruzar as valas comuns de guerras acumulativas, ossos celtas, francos, romanos, franceses, belgas e alemães, chegar à capital da Europa.

 

Ele não sabia ao certo por que havia escolhido Bruxelas para esta fuga dos inferninhos de Berlim, seus exageros de álcool, de cocaína, de quetamina, de Valium, de sexo pago. Todas as vezes em que esteve na cidade o céu de chumbo cinza mais parecia um teto baixo de casebre e o vento frio no rosto era como um dedo em riste convidando-o a retirar-se. Tudo não passava, talvez, de mais uma escolha do acaso pela oferta daquele apartamento. Mas havia a lembrança do cheiro de um menino de vinte anos, o desenho dos seus pés sobre o tapete do seu quarto em Berlim e o dele em Bruxelas, certa linha que ele aprendera a associar aos meninos da região, normandos, picardos, alsácios e valões, formada entre omoplatas, clavícula e costelas, e que uma infância e adolescência de melhores condições e esporte não foram capazes de apagar e esconder de sua espiral genética os séculos de malnutrição dos antepassados, por certo servos de senhores feudais e agricultores esfomeados, sempre a uma colheita desastrosa de distância da morte, que serviram por tanto tempo de bucha de canhão. E ainda servem. Aqueles seus pés e mãos desproporcionalmente grandes em relação à aparência raquítica do torso. Bons para o arado e as armas antes, para as latas de conserva e armas, hoje.

 

*

 

A locatária o instruíra a descer em Brussel-Zuid e esperar por ela ao lado da estátua de um cavalo vestido de zebra. Riu das instruções, cavalo-zebra, pensou no poema de Lorca, que esforço do cavalo em ser cão! Que esforço do cão em ser andorinha! Que esforço da andorinha em ser abelha! Que esforço da abelha em ser cavalo! Mas nossos tempos são menos ambiciosos, o cavalo esforça-se em ser zebra, o homem esforça-se em ser humano. Sai Deus, entra o Homem. Centro ilusório de autoridade. Na plataforma, as palavras Tour et Taxis o fizeram pensar em Rilke. Um senhor de terno e gravata sob uma placa BRUSSEL-ZUID era um prelúdio à elite dos burocratas do continente. Policiais com o sinal de POLICE POLITIE evocavam em sua mente latina a polícia política da Ditadura Militar em que nascera. Soldados com metralhadoras caminhavam pelo saguão da estação. Sua mente vagou para a última vez que vira soldados nas ruas de uma cidade, na Ucrânia, onde também numa estação de trens, em Lemberga, contemplou por longo tempo um menino de seus vinte anos, de farda, sentado no saguão porque, ele imaginou, sentar-se na sala de espera custava ingresso. No rosto do menino, não era mais do que um menino, uma abjeção completa, o desespero dos mansos, dos que obedecem a hierarquia, de quem há um ano é provável fazia planos para a universidade e agora estava a caminho da bacia do Donets. Mas os soldados belgas tinham outro ar. O ar de quem tem a certeza de que vai vencer e sobreviver. “Eles quase sempre vencem”, ele pensou. Uma mulher de burca passa, arrastando o filho. Não muito tempo depois, passa outra mãe, o rosto descoberto mas o alto da cabeça do filho coberto por um quipá. Chega a locatária, sem tempo de o levar ao apartamento, mulher flamenga em seus cinquenta anos, esbaforida em seu horário de almoço, entrega a ele a chave, explica truques e trastes do apartamento. Ele segue para a Praça do Velho Mercado dos Grãos, fossa antiga de muralha, mais tarde mercado de carne e então de grãos, jóia hoje de mercado imobiliário adjunta à Praça de Santa Catarina, na região da Bolsa. O prédio de um modernismo antiquado da década de 50 fora com certeza projetado com escritórios em mente, uma visão do futuro que nos legara o Atomium. Mas sua estreiteza que ganhava em metros quadrados por seu comprimento o lembrava da casa de infância, que o pai fora expandindo cada vez mais para o fundo sem poder comprar os terrenos ao lado. O sol parecia o de um inverno do interior de São Paulo naquele fim de verão flamengo. Dormiu a tarde toda.

 

Escurecia quando acordou. Caminhou até o Boulevard Anspach agora fechado para o trânsito de carros, observou os rapazes brancos e negros às mesas de pingue-pongue, e foi aí que viu a placa que apontava a direção da Praça Fontainas. Percebeu por que a área parecera a ele tão familiar ao subir as escadas da estação de metrô da Bolsa, começou a reconhecer bares, restaurantes, e soube o que Fontainas significava. Caminhou na direção que o instinto e a lembrança daqueles pés, daquelas omoplatas e clavícula apontavam, reconhecendo de imediato o quase-beco na esquina da Rua do Jardim das Oliveiras e a Rua do Mercado de Carvão, onde o bar Fontainas encarava de forma pacífica a Igreja Nossa Senhora do Bom Socorro. Pediu um café, sentou-se entre a igreja e o bar, observou o balcão, as quinquilharias das paredes típicas de bares homossexuais, e chamou para os olhos a imagem de Ésaïe quando o viu ali pela primeira vez e nas vezes seguidas, mais tarde, quando seus pés, suas omoplatas e clavícula estavam a seu alcance. Podia vê-lo ainda ali com uma cerveja ao balcão, de mau-humor atormentado de adolescente, as camisetas sempre pequenas e curtas demais à moda de alguns meninos franceses e valões, as calças também apertadas demais. Elas eram apenas um prenúncio, seu tamanho pequeno atrapalhava-o a tirá-las do corpo, mas quando elas despegavam daquela pele encardida, descolavam das cicatrizes, ele estava lá, de pé, como um nosso senhor do bom socorro. Alisava como quem quisesse passar algodão a ferro as cicatrizes em seus braços, as mutilações voluntárias.

 

Voltou para casa agoniado, perguntando se Ésaïe estava vivo ou morto, se ele próprio estava vivo ou morto. Ao chegar ao apartamento, as redes sociais pipocavam com fotos e vídeos de Dilma Rousseff no Senado Federal. A vibração do telefone anunciava mensagem de Berlim, do amigo teólogo. “Já que você está em Bruxelas, tente ler o que Sebald escreveu sobre Jean Améry na Bélgica. Ele o menciona no Austerlitz.” Ele não sabia sequer que Améry vivera em Bruxelas, mas Austerlitz era o único livro que ele trouxera consigo à cidade. Envia para Ésaïe uma mensagem de texto, “sei que a última vez que nos vimos você disse que não queria nunca mais me ver mas estou em Bruxelas me escreve.” Dormiu com a ânsia de sonhar com pés, clavículas e omoplatas, mas sonhou com supermercados e alfândegas.

 

*

 

Nos próximos dias, explorou a região. A visão da Igreja de São João Batista do Beguinário o chamou para a praça, onde fumou três cigarros antes de perceber um pequeno sebo. Entrou na esperança de encontrar poetas em tradução para o inglês e percebeu logo a estante onde estavam, à porta, porque um menino de mãos grandes de homem e torso de adolescente estava diante dela, com um livro de Nazim Hikmet nas mãos. Após entreolhadelas rápidas, colocou-se ao lado dele diante da estante estreita e tomou dela um volume de Derek Walcott. Quando se apresentaram pela cumplicidade algo estúpida entre leitores de poemas, o menino das mãos desproporcionais diz que seu nome é Koen de Leeuw e aperta a do velhote, mão enorme e lisa em mão peluda e raquítica. Tinha vinte anos. Comprados os livros, convites de conversa, no café confessou ser poeta e ofereceu mostrar a ele o bairro. Perguntou se conhecia Chantal Akerman e se havia visto seu filme Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce, 1080 Bruxelles. Que o endereço era logo ali. “É óbvio que conheço o filme da Akerman. Ela se matou faz pouco tempo, não?”

 

O cais do comércio aparentava isso mesmo, um cais do comércio. Uma terra sem metafísica, como as ruas do comércio de cidades do interior paulista, naqueles nomes que hesitam entre o tupi e o português, tupy or not tupy that is the question, Bebedouro, Catanduva, Jaboticabal, Araraquara. O menino poeta Koen de Leeuw caminhava sobre os pés firmes e enormes, pranchas naquele surfe de asfalto. Entre aquele valão de vinte anos há dez anos e este flamengo de vinte anos hoje, caminha o outro, uma carcaça de decepções. Dez anos separando meninos de vinte. Foi Améry quem falou sobre as fases de transições e mudanças, não uma condição, não a idade? Bruxelas começa a parecer uma cidade de suicidas adiados. Estar de pé na frente do prédio do filme de Akerman não proporciona epifania alguma.

 

Marcam um encontro para a noite seguinte, rever o filme de Chantal Akerman. Quando chega ao apartamento, o presidente do Brasil era o vice-presidente. Pesquisa na rede sobre o filme de Chantal Akerman, que jamais havia visto, sobre a igreja das beguinas que o havia impressionado, e depara-se com informações sobre uma refugiada nigeriana, Semira Adamu, morta pela polícia belga em 1998, asfixiada com um travesseiro, durante o processo de expulsão do país. Sua fuga da Nigéria causada por um casamento forçado.  A igreja, foco dos protestos. Lembrou-se do documentário sobre a prática da mutilação do clítoris das meninas em países como a Nigéria. Para que sejam mansas como os mansos que outro disse que herdariam a terra? Palavras ficaram dançando em sua cabeça: beguina, beata, merceeira, esposa, ascética, monacal, casamento, clítoris, clausura. “Posteriormente subsistiram sob a forma de asilos para solteironas pobres”, diz a página sobre as beguinas. Volta a Austerlitz, chega à passagem em que Sebald discute as torturas sofridas por Améry nas mãos da Gestapo no Forte Breendonk. Antes de dormir, tentou lembrar-se do rosto do soldado ucraniano de Lemberga, mas só conseguia ver a farda. Tudo o que restava era a farda.

 

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A casa em que viveu Jean Améry fica numa rua arborizada na comuna de Uccle, árvores que não sabe nomear, esta árvores do norte do mundo no número 56 da avenida Coghen, outro prédio de modernismo antiquado. O sol carcomia a terra. O sobrado tem apenas uma placa, simples, é o que resta de um escritor muitas vezes, Jean Améry, écrivain, a habité dans cette maison de 1963 à 1978. Não era o ano de seu suicídio? Mas não foi na Áustria que ele se matou? Por que ele viajaria até a Áustria para se matar? Sentou-se do outro lado da rua, num banco ao lado de uma lata de lixo. Fumava quando passou um grupo escolar de crianças. Améry andou então por esta rua, vivo da silva enquanto escrevia na cabeça em voz silenciosa Do suicídio? Que ele não havia lido, e era de outro livro a citação que circulava em sua cabeça, aquela frase de uma peça nazista, de Hanns Johst, “quando ouço a palavra cultura, pego meu revólver”, a paráfrase do produtor interpretado por Jack Palance em Le Méprise, de Godard, que diz a Fritz Lang “quando ouço a palavra cultura, pego meu talão de cheques.” Por que isso, agora? Então veio como uma reza, um terço, como o das novenas de beatas em Bebedouro, a passagem de Améry, “uma pequena pressão da mão que controla o aparelho é suficiente para transformar a outra – junto com sua cabeça, na qual talvez estejam arquivados Kant e Hegel, e todas as nove sinfonias, e O Mundo como Vontade e Representação – num leitão guinchante no matadouro.” Ficou ali ao lado daquela lata de lixo, pensando na palavra cultura. Cultura animi. Cultivação a alma. Agricultura da cabeça. Uccle é uma raça de galinhas. Galinhas de matadouro. Avicultura da língua. Belga  d'Uccle. Apareceu diante dos seus olhos a imagem do corpo triturado de Pasolini em Óstia. Hóstia. O munumento feio em sua homenagem no local, em Roma. A pedra aceita qualquer coisa, monumento, lápide, obelisco. Um monumento aos mortos pode ser visto como festa pelos que os queriam mortos, luto pelos que os queriam vivos. Cultura. A maleta de manuscritos de Walter Benjamin, que estava com ele em Port Bou mas jamais foi encontrada após o suicídio do berlinense. “Todos nós recebemos de presente algo de precioso, que depois perdemos irrevogavelmente. A Besta é o Mal. A coisa perdida é o Bem”, era Giorgio Caproni que havia dito isto? Seu poema famoso chamava-se “Res amissa”. E o Anticristo vai vencendo, até os mortos terminam no matadouro. Galinhas, porcos que guincham, homens. Partiu descorçoado à região do Parlamento Europeu. Desperdício de concreto, pós-modernismo antiquado. Um grupo de homens negros segurava uma faixa exigindo o reconhecimento do genocídio no Sri Lanka durante a guerra civil. Soldados belgas com metrabalhadoras observavam de longe e riam, mas é possível que fosse de uma piada qualquer.

 

À noite, Koen de Leeuw chega de Molenbeek a seu apartamento no Velho Mercado dos Grãos com o filme de Chantal Akerman nas mãos enormes de homem. Seus olhos fazem o rodízio entre a tela, com Jeanne Dielman e suas batatas, seu filho, seus clientes, e o corpo de Koen, suas mãos enormes, seus pés enormes que descalçou sobre o tapete da sala, olhadas disfarçadas de busca de cumplicidade artística pela radicalidade do filme. Sua chatice conceitual. A chatice da vida de sua mãe no interior de São Paulo. Cata o feijão. Refoga o arroz. Tempera o bife. Corta as batatas. Pica a alface. Corta os tomates. Frita. Cozinha. Põe na panela de pressão o feijão enquanto cozinha em fogo brando e banho-maria sua mãe. Antes tivesse acabado com o pai tal Jeanne Dielman com aquele macho último. Casa de matriarcas. A avó benzedeira. A mãe razadeira. A irmã macumbeira. Jeanne Dielman sai de casa um par de vezes. Sua mãe, nem isso. “Que estação é essa?” Koen não sabia. A de Tour & Taxi? O menino de vinte anos pergunta se pode dormir ali. “Claro”. Do banheiro, emerge alto feito um potro. O cabelo desgrenhado de leãozinho. De cuecas. Os frutos que se agitavam nas suas coxas. Põe-o para dormir em sua cama, aponta cobertas, lençóis, travesseiros, tem veleidades de mãe com o menino de vinte anos. Não se mutile, durma bem, sonhe antes que venha o fim dos sonhos. As quebras vêm cedo ou tarde. A tristeza da primeira decepção, a de verdade. Que o mundo diz não e não e não. A dos vinte-e-três. Com sorte, aos vinte-e-quatro. Quiçá aos vinte-e-cinco, os mais sortudos. Mas desilusão é coisa boa, como tirar da embalagem o produto e finalmente saber a sua qualidade para além da propaganda.

 

Foi dormir no sofá, estirado como uma Jocasta. Fantasia asfixias, as mãos gigantes de Koen em seu pescoço. “Não sou digno de morrer como Pasolini”, todo dramático, como se houvesse plateia, quer-se um Pedro de ponta-cabeça numa cruz. Os pés de Koen sobre seu rosto. Quem-lhe-dera. Koen e Ésaïe, mistura-os na imaginação feito mescla de Pino Pelosi e Ninetto Davoli, assassino e amante. Esse novo menino de vinte anos, a promessa de cântaro logo abaixo do umbigo, o centro do losango entre o umbigo e as duas barbatanas cutucando a pele, crista-ilíaca, jarro que jorre espuma, Koen de Leeuw em sua sala de cuecas há apenas alguns minutos, queria-o menos estátua em versão subnutrida de Davi por Michelangelo do que a de Murakami, garoto loiro de mangá com jato de esperma. Dormiu molhado.

 

*

 

Sonha com trens. A viagem quando criança de Bebedouro a Botafogo, o único trecho da ferrovia de sua cidade que se manteve em funcionamento até meados da década de 80. Acorda com a circulação de sangue no braço direito cindida, carne que nem parece parte do seu corpo, com certeza passara horas com o peso do resto de si sobre aquela região também de si, levanta-se e o braço cai como uma pelanca, um pacote. Sente o sangue espalhando-se, feito uma calota de neve sobre um pico, mais lava que neve, que se derrete ou salta de fenda no chão e vai engordando os riachos montanha abaixo. As mãos formigam. Lembra-se do sonho e, pela primeira vez em anos, dos antigos trilhos da maria-fumaça que circundava o lago em Bebedouro. A mãe tentando explicar porque o trem era chamado de maria-fumaça. Os trilhos que sumiram em seguida, quando o calçamento do lago foi trocado por concreto para as comemorações do centenário da cidade em 1984 e pelos danos da Grande Enchente, seu dilúvio de criança, em 1983, quando as famílias bebedoureses ficaram ilhadas por três dias na Vila Paulista, assim chamada porque muitos funcionários da Companhia Paulista das Estradas de Ferro viviam ali, como seu avô de costas quebradas. Veio então certeira a memória da enchente, quando as águas baixaram e o pai o levou à região do lago, e ali, numa poça de água na praça, debatendo-se, pegou um peixe. Um pexie na praça, no concreto, numa poça minguante de água, um peixe que se asfixiava. O que era aquilo, um bagre? Liso, molhado, sem escamas, devia ser um bagre.

 

Aparece nesse momento na sala o menino de vinte anos, Koen de Leeuw sem escamas, a pele também lisa e molhada de suor, como um bagre. Está atrasado para o trabalho, precisa correr, vai vestindo-se às pressas. Jocasta diz que ele não pode sair dali sem um café, e o prepara. E assim some outro menino de vinte anos, mas aquele talvez volte. Desce para a Praça de Santa Catarina convencido a ligar para Ésaïe. Num dos cafés da praça, digita os números, uma voz francesa o avisa que o número não existe. Manda uma mensagem pela rede social a um amigo em comum, pede o número novo daquele antigo menino de vinte anos, de dez anos atrás. Dura o tempo de três cafés a resposta. “R _ _ _ _ _ _, eu pensei que você soubesse. Não queria dar notícia ruim, mas Ésaïe morreu no ano passado. Ele se matou. Sinto muito. É muito triste. Mas é a vida.” Põe o telefone na mesa e o fica olhando por um tempo. Um alerta traz a notícia da descoberta pela NASA de um planeta novo, muito provável que na zona habitável, com água, numa estrela não muito distante. “Vamos voltar para a água” foi o que lhe veio à cabeça, aquele verso de Murilo Mendes. Então, aquelas mutilações voluntárias haviam por fim ido fundo demais, o medo do pai, as exigências de casamento ao filho único haviam levado o primeiro menino de vinte anos de dez anos atrás ao exílio. Exílio do planeta. Uma vontade de ir para aquela estrela nem tão distante, Proxima Centauri. Ao Proxima B, onde não havia ainda fronteiras, casamentos, pais, soldados, trens, Améry.

 

A busca por vida inteligente fora do planeta. Os telescópios virados para fora. Investigando os distúrbios de órbita de anãs vermelhas, inferindo disso a terra, a água. Medindo sua distância, entre a estrela e o planeta, entre o planeta e a estrela que nos carcome agora, esse planeta de uma só lua. Sua zona habitável. Habitável como essa porção de terra sob o sol. Buscando água em outros planetas por ser aí, neste elemento, que surgiu vida neste planeta. Mas não bastaria a gente como a gente encontrar ao redor de outras estrelas, em outras águas, apenas seres parecidos com camarões, caranguejos, polvos, baleias. Quer-se vida como essa, a nossa, com alguma espécie de corpo parecido ao nosso, ainda que a refração de luz do sol sobre nossas peles ainda nos leve separe nossos corpos em fronteiras e estações de trens com soldados e metralhadoras, por onde caminhamos com vestimentas diferentes, cobrindo os mesmos sinais de vida – seios que amamentam, pênis que inseminam – com estampas e cortes de tecido, as mitologias conflituosas com que explicamos o surgimento de camarões, caranguejos, polvos, baleias nas águas, e, na terra, nós. Quer-se inteligência extraterrestre, fora da terra, e enquanto guiamos telescópios acima e abaixo da atmosfera, nas águas do Atlântico, do Índico, do Pacífico, bilhões de indivíduos de espécies extraterrestres vivem em línguas que não compreendemos, baleias e golfinhos e polvos e lulas e sépias, por vestimentas apenas suas peles que, por vezes, podem mudar de cor para sua própria segurança, mutação que nos seria tão prática sobre a terra.

 

Ele olha para o alto. Os sinos de Santa Catarina badalam. No prédio do café, um mastro de bandeira vazio estica-se no ar da tarde. Uma nuvem solitária passa, e no ângulo entre olhos, nuvem e mastro, é como se ela se hasteasse branca no mastro. Aqui, o autor, que se confunde com a personagem, pede ao leitor que retorne à primeira página desse texto onde se lê Os dias públicos e os dias privados, rabisque-o, e com letra do próprio punho onde bate o próprio sangue escreva Uma bandeira de água.

De vertaalde tekst lees je in de papieren versie van DW B 2017 1 ATLAS BRUSSEL.